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segunda-feira, 2 de maio de 2011

Literatura de cordel: As proezas de João Grilo

escrita pelo poeta João Ferreira de Lima.
As proezas de João Grilo



João Grilo foi um cristão
Que nasceu antes do dia
Criou-se sem formosura
Mas tinha sabedoria
E morreu depois das horas
Pelas artes que fazia

E nasceu de sete meses
Chorou no “bucho” da mãe
Quando ela pegou um gato
Ele gritou: – Não me arranhe,
Não jogue neste animal
Que talvez você não ganhe!

Na noite que João nasceu,
Houve um eclipse na lua,
E detonou um vulcão
Que ainda hoje continua
Naquela noite correu
Um lobisomem na rua

Assim mesmo ele criou-se
Pequeno, magro e sambudo,
As pernas tortas e finas
A boca grande e beiçudo
No sítio aonde morava
Dava notícia de tudo

João perdeu o seu pai
Com sete anos de idade
Morava perto de um rio
Ia pescar toda tarde
Um dia fez uma cena
Que admirou a cidade.

O rio estava de nado
Vinha um vaqueiro de fora
Perguntou: – Dará passagem?
João Grilo disse: – Inda agora
O gadinho do meu pai
Passou com o lombo de fora.

O vaqueiro botou o cavalo
Com uma braça deu nado
Foi sair já muito embaixo
Quase que morre afogado
Voltou e disse ao menino:
- Você é um desgraçado!

João Grilo foi ver o gado
Para provar aquele ato
Veio trazendo na frente
Um bom rebanho de pato
Os patos passaram n ´água
João provou que era exato.

Um dia a mãe de João Grilo
Foi buscar água à tardinha
Deixou João Grilo em casa
E quando deu fé, lá vinha
Um padre pedindo água
Nessa ocasião não tinha

João disse: – Só tem garapa
Disse o padre: – De onde é?
João Grilo lhe respondeu:
- É do engenho Catolé. . .
Disse o padre: – Pois eu quero!
João trouxe numa coité

O padre bebeu e disse:
- Oh! Que garapa boa!
João Grilo disse: – Quer mais?
O padre disse: – E a patroa,
Não brigará com você?
João disse: – Tem uma canoa!

João trouxe outra coité
Naquele mesmo momento
Disse ao padre: – Beba mais
Não precisa acanhamento
Na garapa tinha um rato
Estava podre e fedorento!

O padre disse: – Menino,
Tenha mais educação
E porque não me disseste?
Oh! Natureza do cão!
Pegou a dita coité
Arrebentou-a no chão.

João Grilo disse: – Danou-se
Misericórdia São Bento!
Com isso mamãe se dana
Me pague mil e quinhentos,
Essa coité, seu vigário
É da mamãe mijar dentro!

O padre deu uma popa
Disse para o sacristão:
- Esse menino é o diabo
Em figura de cristão!
Meteu o dedo na goela
Quase vomita o pulmão!

João Grilo ficou sorrindo
Pela cilada que fez
Dizendo: – Vou confessar-me
No dia sete do mês.
Ele nunca confessou-se
Foi essa a primeira vez.

João Grilo tinha um costume
Por toda parte que ia
Era alegre e satisfeito
No convívio da alegria
João Grilo fazia graça
Que todo mundo sorria.

Num dia de sexta-feira,
Às cinco horas da tarde
João Grilo disse: – Hoje à noite
Eu assombro aquele padre,
Se ele não perdoar-me
Na igreja há novidade…

Pegou uma lagartixa
]Amarrou-a pelo gogó
Botou-a numa caixinha
No bolso do paletó
Foi confessar-se João Grilo
Com paciência de Jó.

As sete horas da noite
Foi ao confessionário
Fez logo o pelo sinal
Posto nos pés do vigário
O padre disse: – Acuse-se!
João disse o necessário.

Eu sou aquele menino
Da garapa e da coité
O padre disse: – Levante-se,
Eu já sei você quem é;
João tirou a lagartixa
Soltou-a junto do pé.

A lagartixa subiu
Por debaixo da batina
Entrou na perna da calça
Tornou-se feia a buzina
O padre meteu os pés
Arrebentou a cortina.

Jogou a batina fora
Naquela grande fadiga,
A lagartixa cascuda
Arranhando na barriga
João Grilo de lá gritava:
- Seu padre, Deus lhe castiga!

O padre impaciente
Naquele turututu
Saltava pra todo lado
Que parecia um timbu
Terminou tirando as calças
Ficando o esqueleto nu.

João disse: – Padre é homem?
Pensei que fosse mulher,
Anda vestido de saia
Não casa porque não quer
Isso é que ser caviloso
Cara de mata bebé!

O padre disse: – João Grilo,
Vai-te daqui, infeliz!
João Grilo disse: – Bravos!
O vigário da matriz
É assim que ele me paga
O benefício que lhe fiz!

João Grilo foi embora
O padre ficou zangado
João Grilo disse: – Ora sebo,
Eu não aliso croado
Vou vingar-me duma raiva
Que tive o ano passado.

No subúrbio da cidade
Morava um português
Vivia de vender ovos
Justamente nesse mês
Denunciou de João Grilo
Pela artes que ele fez.

João encontrou o português
Com a égua carregada
Com duas caixas de ovos
João lhe disse: – Oh! Camarada,
Deixa eu dizer a tua égua
Uma pequena charada.

O português disse: – Diga!
João chegou bem no ouvido
Com a ponta do cigarro
Soltou-a dentro escondido
A égua meteu os pés
Foi temeroso estampido.

Derrubou o português
Foi ovos pra todo lado
Arrebentou a cangalha
Ficou o chão ensopado
O português levantou-se
Tristonho e todo melado.

O português perguntou:
- O que foi que tu disseste
Que causou tanto desgosto
A este animal agreste?
- Eu disse que a mãe morreu…
O português respondeu:
- Oh! Égua besta da peste!

João Grilo foi à escola
Com sete anos de idade
Com dez anos ele saiu
Por espontânea vontade
Todos perdiam para ele
Outro Grilo como aquele
Perdeu0se a propriedade.

João Grilo em qualquer escola
Chamava ao povo atenção
Passava quinau nos mestres
Nunca faltou com a lição
Era um tipo inteligente
No futuro e no presente
João dava interpretação.

Um dia pergunta ao mestre:
- O que é que Deus não vê,
E o homem vê toda hora?
Diz ele: – Não pode ser,
Pois Deus vê tudo no mundo
Em menos de um segundo
De tudo pode saber.

João Grilo disse: – Qual nada,
Quede os elementos seus?
Abra os olhos, mestre velho
Que vou lhe mostrar os meus
Seus estudos se consomem,
Um homem vê outro homem
Só Deus não vê outro Deus!

João Grilo disse: – “Seu” mestre
Me diga como se chama
A mãe de todas as mães?
Tenha cuidado no drama
O mestre coça a cabeça
Disse: – Antes que eu me esqueça
Vou resolver o programa.

- A mãe de todas as mães
É Maria Concebida!
João Grilo disse: – Eu protesto,
Antes dela ser nascida
Já outra mãe existia
Não foi a Virgem Maria,
Oh! Que resposta perdida!

João Grilo disse depois
Num bonito português:
- A mãe de todas as mães
Já disse e digo outra vez
Como a escritura ensina
É a Natureza Divina
Que tudo criou e fez.

- Me responda, professor
Entre grandes e pequenos
Quero que fique notável
Por todos nossos terrenos
Responda com rapidez
Como se chama o mês
Que a mulher fala menos?

Este mês eu não conheço
Quem fez esta tabuada?
João Grilo lhe respondeu
- Ora sebo, camarada!
Pra mim perdeu o valor
Ter o nome de professor
Mas não conhece de nada.

- Este mês é fevereiro
Por todos bem conhecido
Só tem vinte e oito dias
O tempo mais resumido
Entre grandes e pequenos
É o que a mulher fala menos
Mestre, você está perdido

- Seu professor, me responda
Se algum tempo estudou
Quem serviu a Jesus Cristo
Morreu e não se salvou
No dia que ele morreu
Seu corpo o urubu comeu
E ninguém o sepultou?

Não conheço quem é esse
Porque nunca vi escrito:
João Grilo lhe respondeu:
- Foi um jumento está dito
Que a Jesus Cristo servia
Na noite que ele fugia
De Belém para o Egito.

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